terça-feira, 27 de dezembro de 2011

ONDE A VERDADE SE ESCONDE.

Onde A Verdade Se Esconde. (Fabio Terra)

Dos tantos esconderijos
que a verdade possa
usar.

O coração do “filho de uma puta”
é o que tem as amarras mais cruéis
de se soltar.

A culpa miserável do bairro baixo,
é maquiada com batom barato,
rebocado na boca ignóbil da
moça suada, com cheiro de fim de noite.

Que tira do seu coração, de puta sem culpa,
a verdade mais dura, quando vê o amanhecer
- Mais um dia acabou! Graças à Deus!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O GUARDADOR DE ÁGUAS.

95 anos de poesia, desver e imaginação.


O Guardador de Águas (Manoel de Barros)

I
O aparelho de ser inútil estava jogado no chão, quase
coberto de limos -
Entram coaxos por ele dentro.
Crescem jacintos sobre palavras.
(O rio funciona atrás de um jacinto.)
Correm águas agradecidas sobre latas...
O som do novilúnio sobre as latas será plano.
E o cheiro azul do escaravelho, tátil.
De pulo em pulo um ente abeira as pedras.
Tem um cago de ave no chapéu.
Seria um idiota de estrada?
Urubus se ajoelham pra ele.
Luar tem gula de seus trapos.

II
Esse é Bernardo. Bernardo da Mata. Apresento.
Ele faz encurtamento de águas.
Apanha um pouco de rio com as mãos e espreme nos vidros
Até que as águas se ajoelhem
Do tamanho de uma lagarta nos vidros.

No falar com as águas rás o
exercitam.
Tentou encolher o horizonte
No olho de um inseto - e obteve!
Prende o silêncio com fivela.
Até os caranguejos querem ele para chão.
Viu as formigas carreando na estrada 2 pernas de ocaso
para dentro de um oco... E deixou.
Essas formigas pensavam em seu olho.
É homem percorrido de existências.
Estão favoráveis a ele os camaleões.
Espraiado na tarde -
Como a foz de um rio - Bernardo se inventa...
Lugarejos cobertos de limo o imitam.
Passarinhos aveludam seus cantos quando o vêem.

V
Eles enverdam jia nas auroras.
São viventes de ermo. Sujeitos
Que magnificam moscas - e que oram
Devante uma procissão de formigas...
São vezeiros de brenhas e gravanhas.
São donos de nadifúndios.
(Nadifúndio é lugar em que nadas
Lugar em que osso de ovo
E em que latas com vermes emprenhados na boca.
Porém.
O nada destes nadifúndios não alude ao infinito menor
de ninguém.
Nem ao Néant de Sartre.
E nem mesmo ao que dizem os dicionários:

coisa que não existe.
O nada destes nadifúndios existe e se escreve com letra
minúscula.)
Se trata de um trastal.
Aqui pardais descascam larvas.
Vê-se um relógio com o tempo enferrujado dentro.
E uma concha com olho de osso que chora.
Aqui, o luar desova...
Insetos umedecem couros
E sapos batem palmas compridas...
Aqui, as palavras se esgarçam de lodo.

VIII
Idiotas de estradas gostam de urinar em morrinhos de
formigas. Apreciam de ver as formigas correndo de
um canto para o outro, maluquinhas, sem calças, como
crianças. Dizem eles que estão infantilizando as
formigas. Pode ser.

XX
Com 100 anos de escória uma lata aprende a rezar.
Com 100 anos de escombros um sapo vira árvore e cresce
por cima das pedras até dar leite.
Insetos levam mais de 100 anos para uma folha sê-los.
Uma pedra de arroio leva mais de 100 anos para ter murmúrios.
Em seixal de cor seca estrelas pousam despidas.
Mariposas que pousam em osso de porco preferem melhor
as cores tortas.
Com menos de 3 meses mosquitos completam a sua
eternidade.
Um ente enfermo de árvore, com menos de 100 anos, perde
o contorno das folhas.
Aranha com olho de estame no lodo se despedra.
Quando chove nos braços da formiga o horizonte diminui.
Os cardos que vivem nos pedrouços têm a mesma sintaxe
que os escorpiões de areia.
A jia, quando chove, tinge de azul o seu coaxo.
Lagartos empernam as pedras de preferência no inverno.
O vôo do jaburu é mais encorpado do que o vôo das horas.
Besouro só entra em amavios se encontra a fêmea dele
vagando por escórias...
A 15 metros do arco-íris o sol é cheiroso.
Caracóis não aplicam saliva em vidros; mas, nos brejos,
se embutem até o latejo.
Nas brisas vem sempre um silêncio de garças.
Mais alto que o escuro é o rumor dos peixes.
Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a
fazer parte dos pássaros que a gorjeiam.
Quando a rã de cor palha está para ter - ela espicha os
olhinhos para Deus.
De cada 20 calangos, enlanguescidos por estrelas, 15 perdem
o rumo das grotas.
Todas estas informações têm uma soberba desimportância
científica - como andar de costas.


de "O Guardador de Águas", Ed. Civilização Brasileira.

IMAGINAÇÃO BRINQUEDO.

Imaginação Brinquedo (Fabio Terra)

Noutro dia pensei: A imaginação deve ser o trem mais importante da vida.
Então sentei em baixo de uma mangueira imponente e pus os miolos pra brincar.
Quantas estrelas têm no céu, como seria se a água pingasse pra cima, se peixe tivesse asa! Se caracol cantasse como grilo.
Mas aí o dia envelheceu, e vi que a imaginação tinha me consumido, tal qual curiosidade de menino, desses que não se cansam de perguntar.
Igual a imaginação, que quando você cata pela perna, não faz questão de te largar.

O TREM PASSAGEIRO

O Trem Passageiro. (Fabio Terra)

A tristeza faz do meu corpo sua estação.
O lamento pinta com cores frias o tempo,
Que explode em ânsia por alegria.
Esse trem! Que passa de vez em quando!

domingo, 13 de novembro de 2011

SORRISO PIMENTA

SORRISO PIMENTA ( Fabio Terra)

Os lábios lindos que cuidam o sorriso pimenta
Me jogaram para o ar, ansioso,
Taquicardia provoca cada movimento suave
Da boca cálida.

Me mostro desarmado,
A cada franzir de testa, a cada palavra,
Sem prestar atenção ao enredo.
Preso à boca e a cada sorriso
Que me provam que Deus existe!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

SUPERNOVA

Supernova (Fabio Terra)

A Terra gira em torno do Sol egoísta,
Que morre lentamente, esperando o ano luz
Prá poder explodir em uma Supernova.

sábado, 9 de julho de 2011

DIANTE DO FOGO.

DIANTE DO FOGO (Fabio Terra)

Diante do fogo trocado
Entre balas flamantes.
Um pequeno momento de trégua surge,
Enquanto recarregam-se os tambores.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

PÁSCOA.

PÁSCOA (Fabio Terra)

O manto vermelho cobriu o corpo,
A ferida da crua carne foi aberta
O rabino da Galiléia tombou
Arimatéia, seu sangue, guardou
A pedra foi colocada antes do sol se por
E no terceiro dia o corpo nu ressuscitou.

domingo, 10 de abril de 2011

HOJE NÃO TEVE RECREIO

Hoje Não Teve Recreio (Fabio Terra)

O dia foi vermelho dentro do cenário ingênuo,
A sinfonia esquizofrênica trouxe o inferno até os anjos,
Não houve prece, não houve pressa
Apenas medo e o desejo.

A feliz cidade chora, deprime e endurece
Não existe tanto perdão em nenhum coração,
Para suportar os estampidos inquisidores nos corredores.

Hoje não teve recreio, a não ser para Satã.

sábado, 9 de abril de 2011

LESMOLISAS, ARMAS E O TEMPO

Lesmolisas, Armas e o Tempo (Fabio Terra)

As Lesmolisas andam lentas, assim como o tempo,
quando se tem a arma apontada pra cabeça.

segunda-feira, 28 de março de 2011

MAIS AZEDA QUE LIMÃO

Mais Azeda Que Limão (Fabio Terra)

Mais azeda que limão
Irritada com o tempo que não vem,
Agitada como coração de gente apaixonada.

Mais azeda que limão
Andando de um lado para outro
Buscando a resposta para o tédio.

Quem sabe uma dose?

E quando me beijarem,
Vou ter gosto de caipirinha,
E aí o azedo fica doce e o doce esquenta
A noite.

domingo, 13 de março de 2011

NAVALHA ENFERRUJADA

Navalha Enferrujada (Fabio Terra)

A navalha com gosto de ferrugem, toca os lábios num corte molhado, com o sangue cheio de culpa!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

AI DE MIM.

Ai de Mim (Fabio Terra)

Ai de mim, que nunca tive dó
Ai de mim, que nunca tive dor
Ai de mim, que nunca tive cor
E também nunca tive amor

Ai de mim, que nunca tive beijo
Ai de mim, que nunca tive medo
Ai de mim, que nunca tive jeito
E também não tive segredo

Ai de mim, que nunca tive raiva
Ai de mim, que nunca tive gosto
Ai de mim, que nunca tive pena
E também nunca tive rosto

Ai de mim, que nunca tive sorte
Ai de mim, que nunca tive tudo
Ai de mim, que nunca tive benção
E também nunca tive o mundo.

A IMPACIÊNCIA DO ORGANISMO.

A Impaciência do Organismo. (Fabio Terra)

A impaciência me ataca,
Como um vírus que toma conta do organismo.

A explosão é inevitável
Aplaca a dor da alma
E como fogo ardendo me faz expelir o grito.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O AR.

O Ar (Fabio Terra)

E surge do alto, o ar
respiro fundo e prendo em meu peito,
de olhos fechados, desespero-me em flutuar.

E surge do alto, o ar
pego uma garrafa vazia, e com ele
encho ela até a boca,
sacudo ansiosamente e solto ele em vento.

E surge do alto, o ar
trazendo o teu perfume cheio de pimenta,
que me faz te querer violentamente.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O CORPO NU.

O Corpo Nu (Fabio Terra)

O corpo se mostra nu
com o dorso dourado
sorriso tímido
e ventre suado.

E se esparrama na cama
à espera de um carinho
de costas pro céu
com os olhos fechados.