quinta-feira, 3 de junho de 2010

O CONVITE - 1ª PARTE - (Conto de Joaquim Terra)

O Convite (Joaquim Terra)

Não era muito comum o carteiro ter alguma entrega a fazer naquele endereço. Raramente havia alguma correspondência para entregar ali. Além das obrigatórias contas de água e de energia, que eram deixadas na caixa de correio, quase nunca havia qualquer outro tipo de correspondência destinado àquele endereço. Nem mesmo alguma cobrança, fatura de telefone ou correspondência bancária era entregue ali. Todos na cidade sabiam quem eram as moradoras daquele enorme e mal conservado casarão que vivia sempre fechado e silencioso. Conheciam também os acontecimentos trágicos que envolviam a vida das mulheres que ali viviam quase reclusas, o que aumentava um pouco mais a aura de mistério que cercava a velha casa e as suas moradoras. Até o veterano carteiro surpreendeu-se com o luxuoso envelope que acabara de entregar ali, principalmente porque, mesmo sem ferir a ética da sua nobre profissão, ele sabia exatamente qual era o seu teor. Afinal a cidade era pequena e ele mesmo tinha entregue alguns outros envelopes exatamente iguais àquele em alguns poucos endereços importantes da cidade. E além disso, todos no lugar sabiam que a família Mendonça de Alencar abriria a sua maravilhosa mansão para um magnífico jantar para comemorar o casamento de Izadora, a sua mimada filha única, e os poucos convites que estavam sendo enviados eram inconfundíveis. Assim aquele fato não poderia passar despercebido. Era o assunto do momento na cidade. Também não deixava de ser muito comentado entre a sociedade local, com uma certa ponta de inveja mal disfarçada, o fato de que daquela vez apenas alguns poucos escolhidos, rigorosamente selecionados entre a nata da sociedade, como se dizia no interior, tinham sido convidados pela família. Naturalmente viriam também alguns ricos e famosos de São Paulo e de algumas outras cidades. Afinal o noivo também era filho de uma tradicional, importante e riquíssima família de São Paulo. Filho de banqueiro, diziam alguns, tentando demonstrar conhecimento do assunto e alguma intimidade com os nobres da cidade.

Quando o casamento foi divulgado todos tinham a certeza de que mais uma vez os Mendonça de Alencar não deixariam passar a oportunidade de promover mais uma daquelas famosas festas que costumavam fazer na maravilhosa sede da sua fazenda, que ficava praticamente dentro da cidade. Afinal o local era famoso por ser palco freqüente de grandes e memoráveis eventos, com a presença de muitos convidados ilustres que congestionavam o aeroporto da fazenda com seus aviões particulares, transformavam os jardins da mansão em heliporto e o velho terreiro de café em estacionamento de carros de luxo. E assim muitos, principalmente muitas, ilustres figuras da sociedade local logo se apressaram em, disfarçadamente é claro, começar a providenciar as roupas e as jóias mais adequadas para o grande acontecimento. Porém logo se ficou sabendo que daquela vez, para grande desapontamento e decepção dos colunáveis locais, a família iria receber apenas um número reduzido de convidados muito especiais, rigorosamente escolhidos entre os amigos e parentes mais próximos, para um jantar reservado que com certeza iria ser incomparável em luxo e requinte. Sem demora começaram a circular as especulações sobre o sofisticado buffet contratado para o evento, incluindo os naturais exageros sobre os preços e as extravagâncias do cardápio e da decoração. Logo porém os comentários nos tradicionais pontos de fofocas mudaram de interesse e tentar descobrir quem tinha sido agraciado com o disputado convite passou a ser o principal assunto da cidade. Quando algum privilegiado convidado era identificado, logo os comentários entre os preteridos aumentavam de tom, tentando demonstrar um mal disfarçado desdém de falso desinteresse, porém mal conseguindo disfarçar uma ponta de despeito e inveja. Afinal todos se consideravam tão ilustres ou amigos da família da noiva como o feliz convidado, julgavam em silêncio. Mas, como os critérios para o convite eram prerrogativas exclusivas dos anfitriões, o jeito era se conformar.

Nelson, o carteiro, não era homem dado a inconfidências ou a comentários a respeito do seu trabalho diário. Já estava próximo da aposentadoria e os longos anos percorrendo diariamente as ruas da cidade, entregando envelopes e pacotes dos mais variados tipos e tamanhos, já se constituíam em pura rotina e assim pouca coisa havia a comentar a respeito das suas ocorrências diárias. Costumava chegar em casa no começo da tarde, depois de terminar as entregas que começavam sempre muito cedo e depois de almoçar sozinho o invariável prato feito que a mulher deixava sobre o fogão antes de ir para o trabalho, costumava dar uma esticada no sofá da sala para uma merecida soneca para recuperar-se do esforço das longas caminhadas que era obrigado a fazer para cumprir o seu ofício. No final da tarde costumava encontrar-se com os amigos no velho bar da esquina para algumas cervejinhas e as costumeiras partidas de dominó que se prolongavam até depois do jornal das oito, que era quase sempre assistido na velha televisão do bar. Quando chegava em casa para jantar, muitas vezes de novo sozinho, a esposa já estava concentrada na novela. Depois de jantar costumava sentar-se ao lado dela para acompanhar algum capítulo mais importante e às vezes aguardar o início do futebol. Assim raras eram as vezes que havia algum assunto em especial que pudesse provocar uma conversa mais demorada, mas como o capítulo da novela naquela noite girava em torno de uma grande festa de casamento, Nelson acabou comentando displicentemente o fato de ter entregado um dos disputados convites do jantar dos Mendonça de Alencar no velho casarão das senhoras solitárias. Foi um comentário inadvertido e despreocupado, totalmente isento de opinião e sem qualquer intenção de provocar alguma discussão sobre o assunto, mas sem querer ele acabava de disparar uma bomba de alto teor explosivo. Mariazinha, a esposa, uma fofoqueira de primeira linha, há muitos anos trabalhava como manicure no mais bem freqüentado salão de beleza local e assim, logo no dia seguinte ao despretensioso comentário do marido, a notícia já tinha circulado, se multiplicado e se espalhado por todos os pontos da cidade. E quando se soube que um daqueles raros e disputados convites para o grande jantar tinha sido entregue no misterioso casarão, o fato logo se transformou no assunto mais comentado nas rodas dos excluídos do maior acontecimento social do ano.

Quando o senhor Mariano Borges Diniz da Veiga falira no início da década de sessenta, toda a família ruíra junto. O seu grande patrimônio, herança de gerações de uma família de ricos produtores rurais do interior paulista, incluindo as terras e os imóveis, não foi suficiente para garantir o grande golpe que tinha sido a falência da instituição bancária onde estavam investidos todos os recursos da família. Em seguida, as quebras sucessivas de alguns parentes, dos quais ele era o principal fiador e avalista, terminaram por dizimar o restante da sua fortuna. Os credores tinham sido implacáveis. Primeiro foram os valores e os investimentos. Depois os imóveis. As jóias da família e as coleções de arte foram a seguir, em uma derradeira tentativa de saldar os compromissos pessoais assumidos, pois a sua formação extremamente conservadora, forjada nos tempos em que a garantia dos negócios era baseada na palavra e no chamado fio do bigode, nunca iria permitir que ele simplesmente ignorasse as suas obrigações. Por fim foram as baixelas de prata, os cristais, os tapetes e os ricos objetos que ornamentavam a magnífica mansão. Depois que quase tudo se fora, foi a vez da própria vida. Quando João Paulo, o único filho homem, o seu braço direito, o filho querido recém saído da faculdade de medicina e que era o seu maior orgulho, foi friamente assassinado durante uma discussão acalorada com um credor mais exaltado, os dissabores, constrangimentos e agora a tragédia acompanhada da mais profunda tristeza finalmente venceram. Em uma fria madrugada foi ouvido um estampido seco vindo do escritório da mansão. O cansado senhor Mariano tinha posto fim à sua conturbada vida. Foi encontrado com a cabeça tombada em cima da grande mesa de mogno do seu escritório particular, dentro de uma poça de sangue que manchava também os contratos vencidos, e as letras, promissórias, duplicatas e cobranças que documentavam inequivocamente os motivos das desventuras que o tinham levado àquele ato final. Deixou viúva a bela e elegante senhora Zenaide Rocha Diniz da Veiga e órfã a filha caçula, Julietta que, apesar de ainda adolescente, já participava intensamente da tragédia familiar que se desenrolava na sua própria casa. Graças à atuação competente do seu velho e fiel advogado conseguiram conservar como herança o grande casarão, já meio vazio e sem o brilho dos tempos anteriores. Conservaram também a cultura, elegância e refinamento adquiridos no berço e aprimorados pela educação esmerada e pelo convívio com o mundo ilustre em que viviam. Coisas que nenhum credor do mundo nunca iria conseguiria tirar delas.

Depois da tragédia aconteceu a grande mudança na vida das desventuradas mulheres daquela grande casa. A perda quase simultânea do filho e do marido foi um golpe muito maior do que a frágil senhora Zenaide conseguiu suportar. Foram meses de pranto e de isolamento trancada no seu quarto. O negro do luto passou a fazer parte do cotidiano daquela casa. Os poucos empregados que sobraram logo também se foram. Apenas Marcolina, a velha negra que acompanhava a família há mais tempo do conseguia lembrar-se, continuou na casa. Em pouco tempo os sinais de abandono podiam ser notados na limpeza e, principalmente, na despensa da grande casa. Algumas poucas e fiéis amigas, constrangidas pela situação, preocupadas em ajudar a minorar um pouco aquela triste condição a que tinham chegado as descendentes da família Diniz da Veiga, discretamente cediam algum material necessário para uma faxina e uma arrumação de urgência e vez ou outra providenciavam a reposição de alguns dos itens principais da despensa vazia.

Julietta era uma ingênua e inexperiente jovem de dezessete anos quando tudo isso aconteceu. Sua formação requintada e sua pouca experiência com as vassouras e as panelas, aliada ao seu total desconhecimento sobre dos assuntos financeiros mais elementares, todavia não foram obstáculo para impedi-la de tentar fazer alguma coisa a respeito da terrível situação em que se encontravam. O sangue dos empreendedores e das mulheres decididas da família, que no passado tinham sido responsáveis pela construção do império que agora se desmoronava, pareceu aflorar nela. Decidiu que não iria viver da caridade e da bondade das amigas da família. Sua primeira preocupação foi com a saúde da mãe. Depressão profunda, diagnosticou o médico da família. Aquilo significava a sua incapacidade total para dirigir o destino dela e da filha e então caberia a Julietta tomar todas as decisões necessárias. Descartou prontamente a sugestão de internação da mãe e assumiu para si a responsabilidade de cuidar dela enquanto fosse necessário. Tratou também com o fiel advogado da família dos assuntos relativos ao que restava da herança, garantindo a posse da casa e de alguns outros poucos bens, mas nada que pudesse garantir alguma remuneração regular. Ficou sabendo que o orgulhoso pai nunca tinha se preocupado em garantir nenhum tipo de aposentadoria ou pensão para a velhice, com certeza achava que aqueles eram assuntos pequenos demais para preocupar um homem como ele, dono de um grande patrimônio e que nunca imaginara que os seus negócios poderiam um dia acabar de uma hora para outra. Soube também que nenhum seguro de vida cobria casos de suicídio. Mas vasculhando as pilhas de documentos do falecido o atento e cuidadoso advogado tinha descoberto um benefício ao qual elas teriam direito pelo fato do senhor Mariano fazer parte dos colaboradores e mantenedores de um grande hospital beneficente. Esta condição de esposa de um dos beneméritos da instituição habilitava a mãe a receber uma pequena pensão vitalícia além de atendimento médico e hospitalar, incluindo os seus dependentes. O valor não era alto, mas pelo menos era garantido e seria suficiente para as despesas mensais de alimentação e a manutenção das duas, desde que houvesse apenas gastos essenciais e com muita economia.

Algum tempo depois da tragédia, Julietta até tentou ir à luta. Abandonou os estudos e pensou em iniciar alguma atividade produtiva. Talvez no campo das artes ou das traduções, que eram alguns assuntos que a interessavam e que julgava serem adequados a uma garota inexperiente de dezessete anos. Mas não demorou a ser vencida pela dura realidade. A incapacidade da mãe, que exigia a sua presença constante ao seu lado e as seqüelas psicológicas da tragédia que tinha mudado a sua vida ainda atuavam como elemento inibidor de atitudes mais decididas. O seu temperamento introvertido e a sua timidez também exerciam um forte bloqueio nas suas iniciativas. E ela foi protelando o inicio das suas atividades. E assim passaram-se os meses e os anos. Como a mãe nunca se recuperara totalmente do trauma e passava a maior parte do tempo calada e trancada em seu quarto, Julietta acabou acomodando-se também no papel de filha solteira responsável por cuidar da casa e da mãe. Viu a altivez se apagar do rosto da mãe e a beleza se apagar do seu. Não chegou a perceber quando as rugas aparecerem no seu rosto. Passou diretamente de adolescente a senhora, praticamente saltando as diversões da juventude e os encantos da vida de mulher adulta. Saía muito pouco de casa. Apenas o necessário para algumas compras na padaria ou no mercado, ou para ir à missa nas manhãs de domingo. Nunca mais tivera nenhum tipo de vida social. Tinha algumas raras amigas que costumavam aparecer às vezes no final da tarde para um chá e alguma conversa mais animada. Mas era só. Nunca tinha se relacionado com homem nenhum e nunca tinha conhecido os prazeres do sexo. Aos quarenta anos Julietta era uma mulher ainda bela, apesar das vicissitudes da sua triste vida, solitária, virgem e que se encaminhava resignadamente para uma velhice precoce sem nenhuma pretensão social ou amorosa. Por isso foi grande a sua surpresa quando naquela manhã a fiel Marcolina entregou-lhe aquele requintado envelope, devidamente endereçado a ela que tinha sido deixado na caixa do correio.
Julietta abriu cuidadosamente o envelope, sem danificar o belo lacre prateado que o fechava, desdobrou lentamente o caríssimo papel importado gravado em relevo e quando tomou conhecimento do seu conteúdo a sua surpresa foi ainda muito maior. Colocou o convite aberto sobre a mesa de jantar e por um longo tempo ficou contemplando-o, sem entender exatamente o motivo daquele fato inusitado. Afinal, durante todos aqueles anos ela nunca tinha sido convidada para nenhum acontecimento social de importância. Todos sabiam que ela não era afeita a festas ou a comemorações e que desde que a tragédia acontecera raramente ela tinha sido vista em alguma circunstância festiva. Nem mesmo nas quermesses da paróquia. Além de tudo isso, ela não se lembrava da sua família ter alguma ligação tão especial com qualquer membro da família Mendonça de Alencar. Lembrava-se vagamente de ter sido colega de escola da antipática Heleninha Rocha Aguiar, a mãe da noiva, que desde aquela época já namorava o jovem milionário Leonardo Mendonça de Alencar, o que a alçava à condição da garota mais invejada da turma e contribuía para torná-la ainda mais insuportável. Mas nunca tinham sido amigas. Forçando um pouco mais a memória lembrou-se de alguns flertes disfarçados com Leonardo antes de Heleninha tomar posse dele, mas tudo fora muito passageiro e superficial e com certeza não seria este um motivo para ele convidá-la para o casamento da filha depois de tantos anos. Qual seria então o motivo daquele inusitado convite? Só poderia ter sido engano de alguém responsável pela restrita lista de convidados.

Mesmo na sua quase reclusão voluntária, Julietta também já tinha ouvido alguns comentários sobre o grande acontecimento. Sabia também como eram os jantares como aquele para o qual estava sendo convidada, afinal ela tinha sido criada naquele ambiente. Sabia que não tinha mais roupas e jóias adequadas ou mesmo disposição para um evento de gala como aquele. Faltavam ainda quase vinte dias para o casamento mas ela não precisou de muito tempo para decidir que não iria. Não iria passar pelo constrangimento de comparecer a um evento onde poderia ter sido convidada por engano. Não seria motivo de chacota dos esnobes que, com certeza, a receberiam com desdém ou, pior, como uma curiosidade ou uma extravagância dos anfitriões para divertir os convidados. Não seria motivo de comentários e cochichos disfarçados pelos cantos. Além do que ela mal conhecia a noiva. Estava decidida e pronto. Mas naquela noite ela mal dormiu. Lembranças do seu distante passado de alegrias, quando acontecimentos como aquele eram comuns na vida da sua família, voltavam insistentemente à sua cabeça. Depois de tantos anos ela lembrava-se nitidamente do antigo prestígio da sua família, quando sempre eram os convidados principais de qualquer evento social. E mesmo calejada pelos anos de dificuldades e de tristeza que tinham endurecido a sua alma e tornado-a insensível às preocupações mundanas e sem muita importância como um jantar de gala, naquela noite ela não conseguiu controlar um discreto e sentido choro por tudo o que sua vida tinha se transformado.

Um comentário:

a.p.m.rocha disse...

Poeta,
Cade a segunda parte?
Curiosa...
Beijos